Esse post foi publicado originalmente como parte de uma polêmica com o Alex, que disse certa vez que, por definição, nenhum monoglota é inteligente. A discussão é antiga e já não faz muito sentido, mas serviu pra que eu desencavasse um dos melhores textos de um monoglota genial.
Estou indo para a praia e ficarei longe da internet por vários dias. O blog entra em recesso mas os comentários dos leitores continuam muito bem vindos.
QUANDO TUDO COMEÇOU
Estréia “Vestido de Noiva” (23/12/1943)
por Nelson Rodrigues
No terceiro sinal alguém veio me soprar: “A melhor platéia do Brasil”. E começou a peça. Nove e meia, se bem me lembro. Numa pusilanimidade total, fiquei no fundo de um camarote, arriado. Platéia, balcões nobres, frisas e camarotes lotados. Eu não via, nem queria ver nada. Muitas vezes, tapava os ouvidos, doente de medo. E o pior foi o silêncio do público todo o primeiro ato. Ninguém ria, ninguém tossia. E havia qualquer coisa de apavorante naquela presença numerosa e muda.
Termina o primeiro ato. Três palmas, se tanto, ou quatro ou cinco no máximo. Gelado, imaginei que seriam palmas das minhas irmãs, dos meus irmãos. Continuei no fundo do camarote, cravado na cadeira. Repetia para mim mesmo: “Fracasso, fracasso!”
Termina o segundo ato. Menos palmas. Imagino: “Até minhas irmãs têm vergonha de me aplaudir”. Pongetti tinha razão. “Vestido de Noiva” era o caos. A platéia estava furiosa com o caos. Até que baixa o pano sobre o final do terceiro ato. Silêncio. Espero. Silêncio. Ninguém bate palmas, nem minhas irmãs.
Ainda silêncio. Atônito, pensei em Roberto Marinho que estava no camarote, ao lado. Devia estar me achando uma besta. E, de repente, começaram palmas escassas e esparsas. Um aplaudia aqui, outro ali, um terceiro mais adiante. Atracado à cadeira, sentia-me perdido, perdido. Mas via a progressão. Focos de palmas, em vários pontos da platéia. E, súbito, todos acordaram do seu espanto. Ergueu-se o uivo unânime.
Os aplausos subiam até a cúpula e multiplicavam as cintilações do lustre. Era como se o grande Caruso tivesse acabado de soltar um dó de peito. Os artistas iam e voltavam. Porteiros levavam corbeilles. Veio Ziembinski, arrastado, de mangas arregaçadas, com o suor de gênio da fronte alta. E, súbito, uma voz (possivelmente a de José César Borba) se esganiça: “O autor, o autor!” E não foi só o César Borba. Muitos outros, inclusive mulheres, pediam, exigiam: “O autor, o autor!”
Minha irmã Helena veio me buscar no fundo do camarote. Eu, que me esvaía em suor, gemi: “Não, não!” E ela: “Vem, vem!” Não podia explicar, ali, que eu entrara no Municipal um pobre-diabo; e ainda não me sentia o autor glorioso. Helena, porém, crispada de vontade, arrancou-me da cadeira. Lívido, apareci na varanda do camarote.
Pensei: “Roberto Marinho deve estar impressionado”. Esperava eu, e esperavam minhas irmãs, que a platéia se voltasse para mim e todos gritassem: “Ele, ele!” Mas o que em seguida aconteceu foi muito parecido com um pesadelo humorístico. Estava o autor, em pé, no camarote, pronto para receber a apoteose. E ninguém me olhava, ninguém. Era como se eu não existisse, simplesmente não existisse.
A platéia exigia o autor, mas virada para o palco, de costas para mim. Senti como se fosse um puro espírito, que vaga, invisível, inaudível, por entre os vivos. Deu-me a vontade furiosa de gritar: “Sou eu! Sou eu!” E nada. Por que os artistas do palco não apontavam: “Ali! Ali!” Por um minuto, sem fim, fui excluído da apoteose e me senti um marginal da própria glória. Recuei para o fundo do camarote, dilacerado de vergonha e frustração.
Quando saí do camarote, o primeiro a me abraçar, radiante, foi Roberto Marinho. Em seguida, Sílvio Piergile, o maestro. E ambos disseram: “Formidável!” Mas fora o Roberto Marinho e o Sílvio Piergile, ninguém via em mim o autor. Uma senhora ia na minha frente, com uma graça lânguida e nostálgica: “As mulheres só deviam amar meninos de 17 anos”. Vou descendo; no meio da escadaria, um velho me abraça; diz trêmulo: “Não perdi um enterro de sua família”. E me beija. Embaixo, sou envolvido, abraçado, quase raptado. Álvaro Lins me puxa pelo braço: “Vem cá que eu quero te apresentar o Paulo Bittencourt”. Lembro-me exatamente das palavras de Paulo: “Sua peça é extremamente interessante”. Alguém ciciou no meu ouvido: “Genial!” Isso, dito baixinho, como se fosse uma obscenidade, deu-me vontade de chorar.
Mas tinha que abraçar Ziembinski, o elenco. Fui para a caixa. Quando entrei, vi uma multidão. Ziembinski berrou: “O autor!” Recebi uma ovação espantosa. Ah, eu estava emocionalmente exausto, as pernas bambas, a vista embaçada. Abraço, longa e desesperadamente Ziembinski. Ah, o polaco (ninguém o chamava de polonês, mas de polaco), o polaco dera ao que parecia o caos uma ordem translúcida e perfeita. Depois de Ziembinski, saí abraçando os intérpretes um por um: Evangelina, Carlos Perry, Graça Mello, Expedito Pôrto, Carlos Mello, Isaac Paschoal. Do alto do camarote, eu era fisicamente desconhecido. Agora, não. Ziembinski me apresentara. Da caixa do teatro até a porta dos fundos, não dei um passo sem esbarrar, sem tropeçar numa admiração patética.
Finalmente, desvencilhei-me dos admiradores e cheguei à rua. Estou andando na calçada da Avenida, e atravesso a Almirante Barroso, vou na direção da Galeria Cruzeiro. Sentia-me boiar entre as coisas. A glória era recente demais. Uma hora antes, eu não passava de um pobre rapaz, que ganhava setecentos mil réis mensais (quinhentos na folha e duzentos por fora). E as coisas me pareciam de uma irrealidade atroz. Até a Avenida era irreal, e os edifícios, e as esquinas. Longe, na Praça Mauá, os mastros sonhavam.
No próprio edifício do Liceu de Artes e Ofícios, quase ao lado de “O Globo”, havia uma casa que era, a um só tempo, leiteria e restaurante. Lá serviam um prato chamado “Almoço Nevado”, típico da classe média. Era um bife, que podia ser acompanhado ou de batatas fritas ou de dois ovos estrelados, com arroz. E mais: manteiga, pão e um pudim de sobremesa. Tudo, ao preço compassivo, generoso, de doze mil réis. Entrei na leiteria deserta, sentei-me num canto. Disse, sem olhar o menu: “Traz um Almoço Nevada, com batatas fritas”.
Primeiro, o garçon trouxe pão e manteiga. Comecei a comer com sombrio elán. Tinha, na imaginação, o lustre do Municipal, ardendo em cintilações delirantes. O garçon voltou. Pôs o prato na mesa. Digo-lhe: “Traz mais pão, que eu pago por fora. Manteiga também, sim?” Eu continuava febril de sonho. Mas o prato estava diante de mim. O bife era a vida real.
Um dos parentes dos bebês retira da sacola um martelo e começa a abrir uma das caixas, com a perícia de quem já fez isso muitas vezes. Surge um embrulho. Sim, um pacote branco, que vai sendo aberto lentamente pelo homem do martelo. Um rostinho aparece, como uma flor, emoldurado pelo papel branco com o qual fora embalado.
O homem olha, respira fundo… Logo outras pessoas lhe pedem o martelo emprestado e, aos poucos, as caixinhas começam a ser abertas, uma a uma. Um jardim de pequeninos rostos inertes povoa o grande salão dos mortos. Todos, como em uma orquestra, começam a enfeitar seus filhos com flores azuis, algumas brancas, tudo igual.
Todas as caixas são reunidas em um carro de mão. Um funcionário grita: “Vamos, gente, vamos. Todo mundo já achou o seu? Então, vamos logo, temos que enterrar”. E toma a frente, empurrando o carro com as caixas de bebês empilhadas.
O cortejo segue pela alameda principal do cemitério. Depois de uns 15 minutos andando sob o sol escaldante, chega-se ao local onde as covas rasas já estão abertas. Uma grande fileira de buracos. Apressados, os coveiros vão retirando as caixas do carro de mão e colocando-as nos buracos, em seqüência: número 1, 2, 3… Epa! Alguém alerta: “Calma, calma, esse não é o 4, é o 5, é o meu filho!”
O blog Má Educação publica um relato corta-pulso escrito pela fotógrafa Paula Sampaio sobre um dos enterros coletivos dos bebês que morreram na Santa Casa, em Belém.
Eu nunca entendi direito a obsessão que alguns jornalistas-blogueiros têm pela figura do banqueiro Daniel Dantas (preso hoje em mais uma megaoperação da Polícia Federal). O “orelhudo” parecia ser o responsável por tudo de ruim que acontece nos porões da República. Marcos Matamoros já tinha reclamado que toda a história parecia nebulosa e chata.
E você, caro leitor, pensa a mesma coisa? Não entende o que é que o orelhudo tem? Não agüenta mais ler matérias sobre ele sem entender patavina? Acha tudo isso muito maçante? Seus problemas acabaram!
Bob Fernandes e Samuel Possebon começaram a publicar hoje na Terra Magazine uma fantástica série de reportagens sobre as aventuras de Daniel Dantas no maravilhoso mundo da fraude, sonegação, espionagem e tráfico de influência. O texto é saboroso, e você, que como eu não entende nada das complexas operações cruzadas do mundo dos negócios, ficará por dentro de por que Dantas puxa tantos cordões ocultos do submundo político e empresarial.
Vão lá, sigam os links e leiam tudo. Não vão encontrar nada parecido na cobertura dos jornalões. Tem cenas quase inacreditáveis, como os empregados de um banqueiro cantando a Marcha Imperial de Darth Vader pelas suas costas; um ex-prefeito chorando miséria; e um ex-presidente demitindo a cúpula de seus fundos de pensão depois de uma reunião com a pessoa que eles combatiam.
A PF e o Ministério Público, sabendo das costas larguíssimas que Dantas tem, deram uma tacada de gênio ao vazar para o Jornal Nacional o comentário do banqueiro, de que só precisava de ajuda na primeira instância da Justiça, já que no STJ e no STF ele “resolveria tudo com facilidade”.
Com isso, deixam numa saia justa o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, que, frise-se, é amigo e ex-subordinado de Fernando Henrique Cardoso, o tal presidente que mandou os fundos de pensão pararem de brigar com Dantas. Mendes fica numa situação delicada se der um habeas corpus ao banqueiro, até porque tem blogueiro fazendo até concurso pra saber quando o orelhudo será libertado.
Provavelmente assustado com a revelação do JN, o ministro ligou imediatamente para William Bonner para amenizar o tom de suas críticas à investigação da PF.
Aguardemos a continuação das reportagens da Terra Magazine. O que dá pra saber é que vem muita coisa ainda pela frente.
Atualização: como esperado, o amigo de Fernando Henrique não deixou Dantas e os diretores do Opportunity esquentarem na cela.
Atualização 2: e graças a uma estratégia muito bem montada pela Polícia Federal, o orelhudo está de volta à prisão.
[republicado] A notícia publicada pela BBC, de que a palavra saudade foi colocada em sétimo lugar numa lista das palavras mais difíceis de traduzir, em todas as línguas, repercutiu bastante nos blogs brasileiros. Dezenas deles republicaram o texto.
Como qualquer lista, esta pode ser questionada, mas o fato de chancelar uma antiga crença brasileira, de que temos uma palavra que é só de nossa língua “e de mais ninguém”, fez com que a notícia fosse aceita sem reservas.
Lembro de estar, há alguns anos, numa roda de amigos estrangeiros, alguns conhecedores do português, e citar essa questão da singularidade da palavra “saudade”. Para minha surpresa, a maioria achou que o sentido descrito por mim era comum a qualquer língua.
Algum tempo depois, a revista Bravo publicou um artigo de Sérgio Augusto, “Saudades do Brasil”, onde ele refuta categoricamente o que chamou de “nosso maior orgulho lexical”. Vale a pena ler o longo trecho abaixo.
Foi nas caravelas dos séculos 15 e 16 que a saudade (o sentimento, não a palavra) mais pegou carona; se bem que, em alguns périplos, tivesse outro nome, de origem grega: nostalgia, junção de dor (algia) com a distância da terra natal (nostos). Já no século seguinte, ela (a palavra, não o sentimento), ganharia seus primeiros exegetas, Duarte Nunes de Leão e dom Francisco Manoel de Melo. Se e quanto foram beber em Plotino, “o filósofo da pátria deixada”, talvez o primeiro a refletir sobre as inefáveis sensações ateadas pela nostalgia, não sei dizer.
Embaçada por um étimo nebuloso, que remete à solidão latina (solitas) e à melancolia árabe (saudah), saudade foi soidade e nessas duas formas fez sua estréia triunfal em Os Lusíadas. Tal coincidência não nos autoriza a achar que ela fizesse parte do projeto político do descobrimento, até porque os portugueses não foram os únicos a descobrir que navegar é preciso. A vizinha Espanha fez a mesma coisa — assim como, antes dos ibéricos, o fizeram os fenícios, os viquingues, os gregos e os romanos — e nem por isso os espanhós estabeleceram ligações do sentimento de saudade com o imperialismo ou o império castelhano. Mesmo respeitando vários dos intelectuais que consideram a saudade “a tradução poético-ideológica do nacionalismo místico português”, como, por exemplo, o ensaísta Eduardo Lourenço, cujo alentado ensaio “O Labirinto da Saudade” já emplacou quatro ou cinco edições pela Dom Quixote, o escritor José Saramago sempre que pode dá um chega-pra-lá na saudologia. Este ele deu na Folha de S. Paulo, cinco anos e meio atrás:
“Parece que se está fazendo de Portugal um país único, privilegiado, com certo tipo de relações com o espaço e tempo. Não estamos sós na história com sentimentos, atitudes e filosofias que nos sejam próprios, decorrentes de termos feito descobrimentos e de sermos um povo com uma relação muito direta com o mar. No interior de Portugal, onde sempre vivemos, há pessoas que nunca viram o mar, nem nunca o hão de ver. A saudade é um sentimento comum a toda a espécie humana”.
O que vale dizer que todas as línguas deste planeta têm a sua maneira peculiar de expressar aquela dor que, segundo Elano de Paula, o letrista de “Canção de Amor”, a gente não sabe de onde vem. Que superioridade (moral, etimológica, cultural) tem a palavra saudade sobre o banzo dos negros africanos?
Na segunda década deste século [o texto é de 98], a filóloga lisboeta Carolina Michaelis de Vasconcellos não só trouxe a público vocábulos afins a “saudade” garimpados no galego, no castelhano, no asturiano e no catalão, como pinçou em Goethe uma notável familiaridade entre saudade e sehnsucht. Além de provocar polêmicas com aqueles que piamente acreditam numa distinção entre o doce sentimento português e a ansiedade metafísica alemã embutida em sehnsucht, a filóloga caiu nas garras zombeteiras de Camillo Castelo Branco. Mas ela, e não seus adversários, liderados pelo poeta panteísta Teixeira de Pascoaes — para quem “o povo português criou a saudade porque ela é a única síntese perfeita do sangue ariano e semita” (uau!) –, é que tinha razão.
Posteriormente, o autor se referiu en passant ao assunto em outro texto, publicado no Estado de São Paulo, e republicado no Digestivo Cultural.
Publicado originalmente em 27 de junho de 2004. Republicados sete comentários feitos via HaloScan.
Surgiu uma questão interessante a partir de um comentário que eu fiz neste post do Solon, onde ele falava do FriendFeed, um novo serviço que permite você reunir em um só lugar suas postagens em diversos sites diferentes (blogs, Flickr, StumbleUpon, etc).
Eu senti falta de uma explicação de por que o site é interessante, e ele respondeu que há muita informação sobre o assunto na internet.
É verdade, mas o barato dos blogs é se informar através deles, porque não temos tempo de ler tanta notícia e os blogs refinam isso. Faço um controle rigoroso dos feeds assinados no Google Reader, pra não ficar com coisa em excesso pra ler, e ter só os mais relevantes na lista.
Quando vou escrever, parto do princípio que uma parte dos assinantes do meu próprio feed não conhece ou não tem uma opinião sobre o assunto tratado, então sempre faço um lead ou um pequeno resumo introdutório.
O Solon admite que não gosta muito de fazer resumos (e ele tem todo o direito de não gostar), mas eu acho que é a partir deles que a gente consegue interessar o leitor. Se ele tiver que ler vários links para ficar minimamente informado, talvez simplesmente não tenha tempo pra isso.
Este post tem trazido há anos muitos leitores ao blog por via do Google. As pessoas buscam por “arte efêmera” e caem aqui. Não sei exatamente o que buscam; pra mim foi apenas um bom título para algumas reflexões que surgiram ao ver as fotos.
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Eu não podia ficar indiferente a isso. A incrível reportagem fotográfica da revista Época dessa semana é de deixar qualquer um de queixo caído.
Apesar do entusiasmo do público especializado, gente normal como eu e você não chega a levantar sobrancelhas para as últimas novidades reciclagens do mundo da moda. Mas o desfile de Jum Nakao na São Paulo Fashion Week foi uma surpresa sem precedentes.
O estilista paulistano usou papel vegetal cortado a laser para criar vestidos que parecem saídos de um sonho, inspirados no glamour de várias épocas e locais. Usou a cor branca para valorizar a projeção de luzes e deu às modelos uma caracterização impecável usando collants pretos e capacetes de bonecos Playmobil (quem já teve um brinquedo desses quando criança não tem como não se arrepiar com o resultado).
Nota-se que autor não se limitou a mimetizar vestidos “reais”, mas adaptou-os para formas geométricas extravagantes e delicadamente irreais.
Isso pra mim não é só moda: é arte em toda a sua nobreza. Grande arte sim, mas com prazo de validade marcado pelo próprio artista: ao final do desfile, as roupas foram rasgadas em plena passarela, causando grande comoção na platéia, que urrava e se descabelava com o espetáculo. As próprias modelos já tinham chorado nos bastidores, ao serem informadas que deveriam destruir as peças.
Nakao (que tem formação de artes plásticas) justificou lindamente: “Eu queria levar emoção, fazer as pessoas pensar, entender que a moda é algo efêmero. Mas também falar do desejo por meio de peças refinadas e da inevitabilidade da perda, que culminou com as roupas rasgadas”.
Evidentemente nenhuma das peças expostas será reproduzida para venda. O processo de criação da coleção e o próprio desfile foram registrados e comporão um DVD. As fotos são de Paulo Giandalia. Mais fotos no site da ABIT. O desfile foi notícia em sites estrangeiros.
Depois de tanta arte conceitual sem noção nem emoção, de artistas que apenas expõem conceitos e não tocam o coração nem embelezam o mundo, coisas como essa ainda me fazem ter fé em algum tipo qualquer de vanguarda — palavra que já pareceu tão instigante e hoje é quase palavrão.
Publicado originalmente em 22 de junho de 2004. Republicados cinco comentários feitos via HaloScan.
Os dois superstars da música pop islandesa fazem show amanhã (dia 28, sábado), com transmissão ao vivo pela internet, como parte de protestos contra a destruição da paisagem natural de seu país.
A Islândia é um paraíso ecológico, mas suas florestas estão ameaçadas pela poluição de alumínio. A questão ambiental do país já foi tema de algumas das mais emocionantes seqüências do belíssimo show-documentário Heima, do Sigur Rós.
O show gratuito (entitulado Náttúra) se realizará num parque próximo à capital, Reykjavik, e contará com a participação do também islandês Ólöf Arnalds, entre outros. Já tinha sido anunciado no início do mês, mas a novidade, anunciada apenas esta semana, é a transmissão via webcast pelo site Nat Geo Music.
Portanto anotem: amanhã, dia 28 de junho (sábado), das 16 às 19 horas (horário de Brasília). Não percam!
Trilha deste post: Jóga (do terceiro disco de Björk, Homogenic) e Inní Mér Syngur Vitleysingur (do novíssimo disco do Sigur Rós, Með Suð Í Eyrum Við Spilum Endalaust, que acaba de chegar às lojas). Clique para ouvir.
Este post foi escrito há muito tempo, e é só o primeiro entre vários que republicarei periodicamente a partir de hoje.
Isso é bom por três motivos: atende à minha preguiça monumental de escrever; resgata coisas boas que eu fiz no passado e que os leitores atuais não conhecem; e me permite colocar aqui no WordPress os comentários que os leitores fizeram no antigo endereço, e que eu não consegui resgatar (mas que continuarão lá enquanto o Blogspot e o HaloScan os hospedarem).
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Esta é um banda inglesa bem pouco conhecida do público. Quando seu primeiro disco (”The House of Love”, simplesmente) foi lançado aqui em vinil, nos anos 80, lembro de ter lido uma resenha na extinta revista Bizz dizendo que o lançamento em si era um milagre, pois a banda era anônima até em seu país natal.
O Brasil vivia a febre do rock, pós-Plano Cruzado, e uma pequena gravadora, Stiletto, lançava as jóias do pós-punk e da new wave aqui, em edições encontráveis em qualquer magazine. Foi o tempo, para muita gente, de ouvir pela primeira vez Joy Divison, Nick Cave, Durutti Columm, The Fall e mesmo os discos menos conhecidos do New Order e Smiths.
Todo mundo comprou os seus bolachões, e um dos que mais causou impacto dessa leva foi o do House of Love (1988, Creation). Ninguém sabia nada sobre eles, mas não importava: o disco é uma coleção perfeita de canções de amor, intensas e ao mesmo tempo melancólicas; alterna rocks e baladas com equilíbrio, e tem melodias apaixonantes.
O som é influenciado pela psicodelia sessentista, com “muros de guitarras”, feedbacks, corinhos, etc, mas com uma energia e um peso vindos do pós-punk. O vocal de Guy Chadwick (também o principal compositor) impressiona, e todas as músicas são assobiáveis e tocáveis ao violão.
É difícil separar faixas, mas Chistine, que abre o disco e foi o único single, é um bom cartão de visitas para a banda: rock viajante com um belo arranjo em camadas, e que evolui para um êxtase de guitarras distorcidas. Man to Child e Love in a Car também estão entre as minhas preeridas. Escute abaixo.
1. Christine
2. Man to Child
3. Love in a Car
Se tivesse surgido hoje, a banda talvez fosse aclamada como a salvação do rock. Na ressaca pós-fim dos Smiths, passou despercebida, com pouco ou nenhum sucesso comercial, e uma sucessão infindável de singles fracassados e sessões de gravação abortadas, até terminar de forma melancólica em 1993. Chadwick ainda tentou vários projetos, solo ou acompanhado, também sem sucesso.
Mesmo assim, o House of Love deixou várias pérolas em discos posteriores. Além desse debut, quase não houve mais edições nacionais: Call Me (do derradeiro “Audience with the Mind”) integrou a trilha sonora de Faraway, So Close! (Tão Longe, Tão Perto, filme de Wim Wenders), e I Don’t Know Why I Love You (do disco de 1990) fez parte de uma coletânea brazuca chamada “College Rock”.
“The House of Love”, o disco, está fora de catálogo, mas foi incluído integralmente na compilação 86-89: The Creation Recordings, juntamente com todos os singles lançados no início da carreira da banda.
Há um ótimo site não-oficial, The House of Love & Guy Chadwick, que compila a discografia completa. Segundo o site, a banda retornou para alguns shows no ano passado e está gravado um disco novo. É esperar para ver o que os quixotes apaixonados vão aprontar dessa vez.
Publicado originalmente em 19 de junho de 2004. Republicados dois comentários feitos via HaloScan.
[atualizado] A Guerra do Iraque foi pra levar demoracia para um povo sofrido! Ô povo desconfiado! Não sabem apreciar as intenções nobres de uma superpotência boazinha!
Gigantes petrolíferas ocidentais — como a Exxon Mobil, Shell, Total e BP (British Petroleum) — estão em fase final de acertos com o Iraque para voltarem a explorar as reservas petrolíferas do país sob contratos firmados sem concorrência, revela o “New York Times”.
As companhias estão há 36 anos longe do país, desde que o ex-ditador iraquiano, Saddam Hussein, nacionalizou as concessões das empresas.
Atualização: o New York Times revelou que o governo norte-americano se envolveu profundamente na negociação dos contratos entre o governo (fantoche) iraquiano e as companhias de petróleo que ganharão a mamata de explorar o petróleo do país sem concorrência.
Só sendo ingênuo para não saber disso, mas é bom ver a coisa em letra de forma. Via Toda Mídia.
Era o tempo da descrença, e era o tempo da esperança. Era o tempo de quebrar as estátuas, e o tempo de entronizar novos ídolos. Era a crise e era a oportunidade.
Nunca vamos nos recuperar daquele tsunami musical, a new wave. Todos aqueles clichês do rock-meninos-cabeludos-guitarras-distorcidas sendo pulverizados por uma geração quase inacreditável de artistas dos dois lados do Atlântico Norte, que transformaram o ecletismo, o desassombro, a vontade de experimentar, misturar sons e culturas, proclamar a morte do mundo como o conhecemos, e o nascimento de um outro, transformaram isso numa regra, a regra que balizaria a música pop daí pra diante.
Todo esse imenso nariz de cera é porque uma das bandas mais importantes daquela época, o New Order, acabou, como já abordei neste post, mas seu legado nunca será esquecido, e hoje a Europa é varrida pela onda indie dance, totalmente tributária do quarteto de Manchester. As bandas já não se limitam a fazer rock divertido pra dançar, como no britpop; injetam no próprio âmago de seu som os beats eletrônicos da dance music.
O rock teve o verão do amor em 1967, a música eletrônica teve o seu em 1989, com a explosão da acid house, e muita água passou debaixo dessa ponte. Hoje a ortodoxia é o sinal de morte de qualquer artista.
A minha banda indie dance preferida são os australianos do Cut Copy. Lançaram em abril o seu segundo disco, In Ghost Colours, um dos álbums mais fantásticos dos últimos anos. A geração MP3 talvez não saiba, mas “álbums” existem e podem ser um pacote completo de felicidade. Nada contra singles, três ou quatro minutos avassaladores tomando conta de uma cultura. Mas um álbum separa os homens dos meninos.
E com o Cut Copy esses meninos viram homens celebrando e fazendo festa. Um disco incrivelmente solar, incrivelmente pra cima, incrivelmente vontade de subir na mesa e pular e cantar junto.
É atualmente o único álbum que eu faço questão de escutar inteiro, do início ao fim, sem pular uma faixa sequer. Este procedimento é arriscado com 95% da música pop lançada hoje; não tente fazer isso em casa com qualquer um.
Já que falamos em New Order, não me digam que eles os imitam, porque uma coisa é imitar o clima, a ambiência de uma época, como faz a maioria das bandas do chamado “novo rock”, outra é emular o pop perfeito. Só se consegue isso… fazendo também pop perfeito. Melodias que parecem que nunca deixaram de estar em nossa mente: pra fazer isso não tem receita.
Reúna oito ou dez singles prontinhos pra serem prensados, três ou quatro vinhetas pontuando, e temos o melhor disco de 2008. Strangers in the Wind é só um dos motivos para você ouvir esse disco inteiro ainda hoje.
(clique para ouvir)
Strangers in the Wind
(Cut Copy)
These hands like strangers in the wind
These eyes float in the breeze
These hands like strangers in the wind
This voice calling to me
Run to the lights of the city
These moments pass and we’ll be there
(And she looks good)
Run to the lights of the city
(And she looks good)
This dance will last us forever
Forever
You could stay for what you came here for
A daze is what you’re falling for
A Mozilla lançou hoje a versão 3.0 do Firefox. É hora de ir lá e pegar sua cópia do melhor navegador da internet. Os downloads feitos até as 14 horas de amanhã, 18 de junho (horário de Brasília), contarão para que o Firefox bata o recorde mundial de downloads feitos em um único dia.
Este blog sempre apoiou o Firefox, e o faz não só porque é um ótimo programa, mas porque ele evolui pensando em seus usuários, em suas necessidades mais importantes. A versão 3 não é diferente, embora a evolução desta vez seja ainda mais notável.
Ao contrário do Internet Explorer 7, que fez confusas alterações em sua interface, o Firefox 3 mantém o arranjo tradicional de ícones e barras para, nas internas, incluir mudanças profundas e recursos nunca antes vistos.
O site oficial tem um guia ilustrado de todas as novidades, mas, se eu tivesse que pegar apenas uma para convencê-lo de que o Firefox 3 é um novo paradigma, eu destacaria a nova barra de endereço.
Digitar um endereço é a ação mais popular entre os usuários, e o Firefox 3 torna muito mais fácil encontrar o que se deseja, porque, enquanto se digita, o programa oferece opções baseadas não só no endereço como no título das páginas arquivadas no Histórico e Favoritos, e as primeiras opções da lista são as consideradas mais relevantes para o usuário.
O conceito de “relevância” é o que fez o Google tornar-se o site de buscas padrão no mundo, e a barra do Firefox 3 (já apelidada de “awesome bar” pelos fãs) faz com que o usuário, ao digitar o endereço, esteja na verdade fazendo uma busca no que visitou nos últimos 90 dias, podendo inclusive usar várias palavras ao mesmo tempo.
As outras mudanças também são nos módulos mais populares. Agora é possível interromper e reiniciar downloads; adicionar favoritos com apenas um clique; memorizar senhas após o login bem sucedido; e muito mais. Vejam lá no guia oficial; o site IDG Now também fez um estudo detalhado das novas funções.
Talvez eu faça posts explicando os vários recursos, se os leitores tiverem paciência e eu, disposição. O que importante dizer agora é que a Mozilla faz as mudanças levando em conta as necessidades dos usuários, e não planos mirabolantes de marketing, como os da Microsoft, que parece querer reinventar a roda todos os anos.
O Internet Explorer 7 sumiu com menus, mudou os ícones de lugar, e não permite ao usuário ajustar a interface como bem entender (ao contrário do Firefox). Todas as vezes que sou obrigado a usá-lo e fico procurando que nem um idiota o botão de reload, rogo praga para as últimas sete gerações da família Gates.
O Firefox é um produto feito por nós. Quem usa percebe: as mudanças mais importantes são exatamente aquelas que precisamos, não as que a empresa quer nos enfiar goela abaixo. A Mozilla ouve quem usa o programa, faz testes de usabilidade, e foca sempre no usuário comum, pois são esses milhões que vão fazer a diferença na hora de reconquistar a web das mãos de quem a roubou.
Nós, os usuários, vamos ganhar a guerra dos browsers. A nova profecia do Livro de Mozilla confirma:
Mamon adormeceu. E o renascimento da criatura disseminou-se pela terra e seus seguidores tornaram-se exércitos.
E eles apregoaram a mensagem e sacrificaram lavouras com fogo, com a astúcia das raposas. E eles criaram um novo mundo à sua imagem e semelhança conforme prometido pelo texto sagrado e contaram da criatura para suas crianças.
Mamon despertou e, veja só, nada mais era do que um discípulo.
O governo do Rio Grande do Sul cancelou, sem decreto ou aviso oficial, os direitos constitucionais de reunião e manifestação no Estado.
Ameaçada de impeachment, por causa das gravações que mostram a participação dela no desvio de recursos públicos, a governadora Yeda Crusius nomeou o truculento coronel Paulo Roberto Mendes para comandar a Brigada Militar (a PM do Rio Grande).
Mendes, autor da frase “Não tem jeito, tem que ir pro paredão”, já comandou várias ações de repressão violenta a movimentos sociais, e certa vez foi questionado na TV pelo assassinato de um pedreiro pela polícia em Gravataí, quando comentou: “Às vezes, se preocupam com uma eventual pessoa que a polícia tenha matado”.
O coronel foi nomeado com ordens expressas de sufocar violentamente as manifestações que se avolumam contra o governo de Yeda. Sem apoio, sem argumento e sem moral, a governadora partiu para a ignorância.
De ontem pra hoje a Brigada Militar já deixou dezenas de feridos, dispersando manifestações pacíficas com cassetetes, balas de borracha e gás lacrimogênio.
Enquanto isso, a grande imprensa prefere ignorar o assunto, ou faz pior, como a Falha de S. Paulo, que publicou uma matéria ridícula onde diz que a Via Campesina tentou fazer saque a um supermercado.
Nem o Zero Hora, integrante do grupo de mídia que ajudou a eleger Yeda governadora, comprou essa versão mentirosa dos brigadianos. O repórter da Folha não estava lá e escreveu a matéria baseado exclusivamente do que disse a polícia.
Quem gosta de debater em fóruns online e curte cinema, quadrinhos, rock e jogos de computador, precisa conhecer o Joio. Na minha opinião, o melhor fórum de debates sobre cultura pop da internet brasileira.
Conheço o pessoal do fórum há muitos anos, virtualmente, desde o finado newsgroup do UOL, ainda na década de 90. Os debates são bem informados, mas totalmente irreverentes e politicamente incorretos.
Sob nicks estranhos tem gente que sabe do que está falando: Bennett é uma sumidade em quase todos os assuntos, e uma das grandes autoridades sobre direito e propriedade intelectual na internet. Quase Nada é simplesmente o melhor escritor sem blog que eu conheço, e ele mesmo é um personagem de ficção de primeira linha. Fábio Negro comenta em vários blogs legais e também escreve fantasticamente bem. Plague Rages é cineasta, jornalista e manda algumas matérias interessantes da Inglaterra.
Alguns assuntos rendem tópicos memoráveis, como a briga Nintendo Wii x Play Station 3, e o quebra-pau sobre a qualidade do último Indiana Jones, um tópico que ilustra bem o surrealismo a que chegam os debates lá.
Fica a dica. Dêem uma olhada na página inicial, com os destaques dos editores, e a página dos tópicos mais recentes. Ao contrário de certas comunidades no Orkut, que são casa da mãe Joana, o Joio tem uma política rígida contra flame wars (só pode fazer de mentirinha). Vejam o time de moderadores de lá… vai encarar?
E você, que não mora no Rio Grande do Sul, talvez não saiba disso.
Ontem, no prosseguimento da crise de corrupção no Detran, o vice-governador Paulo Afonso Feijó (DEM) divulgou uma gravação de uma conversa sua com o chefe da Casa Civil da governadora, Cézar Busatto, onde este simplesmente admite que Yeda e os partidos que a apóiam se financiam com dinheiro público:
Um pequeno partido que ganha uma eleição dessas, precisa governar com maioria. E é um pouco o caso do PSDB no governo do Estado. Acaba tendo que fazer concessões a partidos aliados. Tu pegas tanto o Banrisul quanto o Detran. Eu não tenho dúvida de que é grande fonte de financiamento. Eu não creio que a governadora seja totalmente responsável por tudo isso. Quer dizer, é claro que ela é. Mas eu digo: o custo que teria romper com o Zé Otávio [Germano, deputado federal do PP]?
Este é só o trecho mais chocante da conversa, tem outros bem ruins além desse. O Rio Grande está uma terra em transe com os desdobramentos inevitáveis da crise, que devem ser ou a renúncia ou o impeachment da governadora. Estudantes cercaram o prédio da Assembléia Legislativa, e está marcada para a segunda feira uma passeata de caras-pintadas, que tudo indica será imensa e a pá de cal no governo da primeira mulher a ascender ao Palácio Piratini.
Mas veja o descaso dos grandes jornais brasileiros: apenas a Folha Online publicou em sua homepage chamada para o texto curto mas interessante de Josias de Sousa. Estadão e Globo Online fizeram apenas matérias internas; no caso do Globo, apenas uma notinha minúscula do Noblat.
Dá até pra tecer teorias conspiratórias de por que um governo do PSDB está caindo e tem tão pouco destaque, enquanto cada espirro dos aliados de José Dirceu contra a ministra Dilma Roussef ganha ampla cobertura. Mas isso fica pra outra oportunidade.
Atualização: agora que o Jornal Nacional finalmente lembrou que o Rio Grande existe, é capaz que o resto da imprensa acorde…
Se há uma coisa que me irrita num filme, é quando algum significado em uma cena já ficou totalmente claro, através de frases, olhares ou gestos, e depois alguém (um dos personagens, ou a narração em off) “explica” ao espectador aquilo que ele já entendeu…
O longa de estréia do norueguês Joachim Trier, Reprise, tem uma cena assim. Um dos protagonistas, o jovem escritor Erik, encontra seu ídolo literário, Sten Egil Dahl, num evento, e o aborda na saída do prédio.
O velho escritor é um homem recluso, mas dá uma chance ao rapaz, por causa da abordagem um tanto solene e respeitosa. Mas antes que Erik possa falar, aparece um conhecido dele, Mathis, espécie de filisteu literário, que também tenta falar com Dahl, mas de um modo frívolo, que denota o cabeça-de-vento que é.
Dahl olha com contrariedade e dá um jeito de se despedir dos dois rapazes, sem lhes dar muita atenção. Foi Mathis que arruinou uma possível conversa, mas é claro que daí em diante Erik também ficou registrado por Dahl como “pessoa a se evitar”.
O que temos logo em seguida? O narrador do filme dizendo que “na cabeça de S. E. Dahl, Erik e Mathis eram agora inseparáveis”. Ó raios! Terrível mania de alguns autores de achar que os espectadores são incapazes de chegar a conclusões simples como essa…
À parte esse comentário lateral, trata-se de um bom filme. Não vou resenhá-lo aqui, apenas dizer que é uma história bem contemporânea, sobre dois jovens amigos escritores, Erik e Phillip, vista sob um ótica de frieza e cinismo típicos da juventude intelectual urbana.
Não há melodrama, e talvez essa frieza, o vazio interior e a desesperança dos rapazes se deva a alguma idéia de “paraíso perdido”, um tempo de ingenuidade e alegria que se foi após um terrível colapso nervoso de Phillip, o mais brilhante deles.
Vale a pena conferir. Pra variar, não há previsão de lançamento no Brasil.